XIISMO, SUFISMO E GNOSTICISMO

Fonte/Source: Shi‘ism, Sufism and Gnosticism


Por Tiao Cazeiro

A comunidade Dervish Gonabadi está mais uma vez sob pressão total do regime Iraniano, literalmente em guerra nas ruas. Ativistas publicaram imagens recentes (3/2/18) mostrando membros da comunidade impedindo a prisão do famoso líder Sufi Dr. Noor Ali Tabandeh, pelas forças de segurança do estado, a IRGC Basij.

Ridicularizando o que ele descreveu como “comportamento provocativo”, o líder de 90 anos dos Dervixes de Gonabadi citou em sua mensagem de voz: “Muito trabalho foi feito para manter a paz no país, embora às custas de ser espancado em nossas cabeças; ainda assim, o país está calmo, mesmo assim. Não o perturbe [a paz] em vão. Não há ninguém que ameace minha vida ou minha casa. Eles querem um show off. Esta é uma abordagem errada.”


XIISMO, SUFISMO E GNOSTICISMO

Por Dr. Hajj Nour Ali Tabandeh

Dr. Hajj Nour Ali Tabandeh

Xiismo, Sufismo E Gnosticismo [1]

“Meu Senhor! Expande meu peito, e facilite o meu trabalho, e afrouxe o nó na minha língua para que possam entender o meu discurso.” [2]

Com relação ao Xiismo e o Sufismo — duas palavras denotando a mesma realidade, entretanto, scholars contemporâneos, especialmente os Ocidentais, têm cometido vários erros.

Esses erros foram cometidos por ignorância ou intencionais. Desde o começo, a missão de alguns era criar corrupção dentro do Xiismo e instigar o sectarismo dentro do Islã, fornecendo informações ao seu próprio aparato colonialista. Muitos chegaram à mesma conclusão com sinceridade, embora fossem explorados por outros.

O primeiro erro que cometeram sobre esse problema foi no que diz respeito à data do surgimento histórico do Xiismo. Alguns dizem que começou após o falecimento do Imam ‘Ali, que a paz esteja com ele. Outros dizem que apareceu após o martírio do Imam Husayn, que a paz esteja com ele. Há outras opiniões desse tipo também. Seu erro é fazer confusão entre a aparência de um nome com a aparência de sua denotação. Enquanto um nome pode aparecer ou ser aceito em qualquer momento, não desempenha nenhum papel na questão principal. Quando uma escola de pensamento está em questão, não se deve prestar atenção a meros rótulos. Da mesma forma como os Xiitas eram às vezes chamados de Xiitas de ‘Ali e às vezes de Shu’ubites [3], porque os Xiitas se apegaram a este verso do Alcorão em que Deus [sic] diz:

[Alcorão 49:13] Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente.” [4]

Isso porque havia não Árabes que se converteram ao Islã e que esperavam que não houvesse diferença entre eles e os Árabes. Infelizmente no entanto, entre os califas, com exceção do Imam ‘Ali e o Imam Hasan, tais diferenças eram mais ou menos feitas. Em reação a isso, os Xiitas se referiram a esse verso. Havia também uma período durante o qual eram chamados de Rafidi, que significa “aqueles que abandonaram sua religião.” Deste modo, os Xiitas foram chamados por uma variedade de nomes, mas, como foi mencionado, a aparência de um nome não é motivo para a ausência anterior de denotação.

[1] Este artigo foi escrito em resposta a uma carta inquirindo sobre as relações entre Xiismo, Sufismo e Gnosticismo. O autor se explicou em linguagem simples a pedido do correspondente. Foi publicado em Persa no Journal Erfàn-e Iran, (2000) Vol. 2, nº 7, 11-23.

[2] Alcorão (20: 25-28)

[3] Esta palavra vem de sha’b que significa povo, nação ou tribo. [Tr.]

[4] Alcorão (49:13).

Gonabadi Dervishes Celebrando Eid Al-Fitr em Teerã, Capital do Irã.

Temos que observar a diferença entre as visões Xiitas e Sunitas dentro do Islã, e quais são os princípios para que possamos discernir quando o Xiismo se originou, com base no surgimento de seus princípios.

Após o falecimento do Profeta (Muhammad/Maomé), ‘Ali, ‘Abbas, o tio do Profeta, e talvez algum dos outros Hashimites ocuparam-se com o enterro. Enquanto estavam ocupados, um grupo reuniu-se em um lugar conhecido como Saqifah Bani Sa’idah, e nomearam Abu Bakr como califa em um processo narrado na história. Assim Abu Bakr tornou-se o primeiro califa. Depois de Abu Bakr, ‘Umar tornou-se califa e depois dele ‘Uthman. O quarto foi ‘Ali, que a paz esteja com ele.

Desde o início, após o falecimento do Profeta, aqueles que desaprovaram o evento de Saqifah Bani Sa’idah disseram que, assim como o Profeta não foi selecionado por nós, mas escolhido por Deus, da mesma forma, seu sucessor não deveria ser selecionado pelas pessoas, e as pessoas não têm o direito de fazer isso, mas deveria de acordo com a vontade de Deus.

Eles continuaram, pois o nosso Profeta é o último dos profetas, não há mais revelações, mas, porque qualquer coisa que o Profeta disse equivale à revelação, como é explicitamente afirmado pelo verso “Nem fala por capricho. Isso não é senão a inspiração que lhe foi revelada.” [5] aquele nomeado pelo profeta é nomeado pelo próprio Deus. O Profeta nomeou ‘Ali para ser seu sucessor em vários momentos durante sua missão. Portanto, o sucessor do Profeta é ‘Ali, e não alguém nomeado pelo povo.

Aqueles Sunitas que aceitam o evento de Saqifah dizem que, como as pessoas estavam reunidas lá e escolheram o califa, a escolha deles é válida, e ele é o califa (embora, essa posição também tenha sido criticada, já que todas as pessoas ou os chefes e tomadores de decisão não estavam presentes).

Historicamente falando, não há dúvida que depois do Profeta, Abu Bakr, em seguida ‘Umar, em seguida ‘Uthman, em seguida ‘Ali, e em seguida Imam Hasan tornou-se califa.

Mas os Xiitas dizem que a verdadeira sucessão do Profeta, isto é, o seu califado espiritual, é o certo, ou melhor, o dever de ‘Ali. A principal diferença e desacordo ocorrem deste ponto. Os seguidores de Abu Bakr, ‘Umar e ‘Uthman foram nomeados Sunitas, enquanto os seguidores de ‘Ali e Imam Hasan eram chamados de Xiitas.

Então a principal diferença entre Xiitas e Sunitas é que o último permite que as pessoas escolham o califa enquanto o primeiro acredita que o califado deve ser determinado de acordo com a ordem e o decreto do Profeta.

É óbvio que ‘Ali foi nomeado pelo Profeta, e como sempre deve ter um representante divino na face da terra, depois de ‘Ali, quem for nomeado por ele será o califa, e assim por diante. Se tomarmos essa diferença em consideração, veremos que a base do Xiismo apareceu imediatamente após o falecimento do Profeta, mas não se pode dizer que tenha ocorrido. A diferença já estava presente, mas durante a vida do Profeta isso não emergiu porque não havia nenhuma razão para isso. Após o falecimento do Profeta, as diferentes inferências tornaram-se aparentes.

[5] Alcorão (53: 3-4).

Assim, o Xiismo apareceu desde o momento da morte do Profeta. Entretanto, mais tarde, o Islamismo Xiita e Sunita atraiu outros materiais e ideias enquanto avançava no decorrer da história para que cada uma delas se transformasse num sistema de regras e ideias. Os princípios básicos do Xiismo são os mencionados acima. Poderíamos dizer que todo poeta, escritor e Sufi é um Xiita que acredita no walayah de ‘Ali, isto é, que ‘Ali é o sucessor imediato e verdadeiro do Profeta, e que este é o seu direito exclusivo. Considerando este ponto, pessoas como Sa’di, Hafiz e Rumi, e em geral, todos os grandes Sufis eram Xiitas.

Se diferem de acordo com seus preceitos jurisprudenciais, essa diferença é irrelevante à questão básica, assim como existem inúmeras questões na lei Islâmica sobre as quais juristas Xiitas e Sunitas discordam que também circulam entre os próprios juristas Xiitas. No entanto, o ponto básico é que alguém que acredita no walayah de ‘Ali pode ser considerado Xiita. Portanto, como já mencionamos, o Xiismo surgiu logo após o falecimento do Profeta, embora seus ensinamentos já estivessem presente. Isto não era evidente porque não havia oponente para negá-los.

Quando scholars estrangeiros não-Muçulmanos investigam uma ideia, não envolvem a escola de pensamento em si e seus princípios; em vez disso, se concentram nos fenômenos exteriores. Portanto, como ‘Ali às vezes ajudava os califas a cumprirem as regras da lei Islâmica, tais scholars não consideram que esse período seja o da existência ou surgimento do Xiismo. Tomam como critério deles, para o surgimento do Xiismo, o tempo em que surgiram diferenças entre ‘Ali e os califas. Claro, esse erro também persuadiu os pesquisadores Muçulmanos, especialmente aqueles que são ignorantes da espiritualidade básica dos primeiros Muçulmanos. Ao longo da história sempre houve inúmeros desentendimentos entre essas duas idéias — a Ideia Xiita de nomeação do líder, e a ideia Sunita de eleição.

Os califas estavam constantemente ocupados com a destruição da ideia Xiita através de vários meios, e até perseguiram os proponentes dessa ideia, os Xiitas, para que praticassem a dissimulação (taqiyyah) durante todo o período dos Imams, e até mesmo mais tarde. Esta é a causa do encorajamento da dissimulação entre os Xiitas. Com relação a isto, existem histórias famosas, como aquela sobre ‘Ali ibn Yaqtin, que era um ministro de Harun al-Rashid e praticou a dissimulação. Dessa forma, vários Xiitas foram obrigados a se aposentarem para não serem descobertos, e para que pudessem organizar suas ideias e crenças e orientar os outros.

Eles encontraram outro nome na história do Islamismo, esse nome era Sufi, e pouco a pouco o termo tasawwuf (Sufismo) se tornou atual. Não faz diferença o que etimologicamente a palavra Sufismo significa. O que normalmente é dito e no que diz respeito a, é que tasawwuf deriva da raiz suf, que significa lã, e que tasawwuf significa estar usando roupas de lã. Os Sufis geralmente usavam lã e há relatos de que os profetas também vestiam lã. Como a lã é especialmente grosseira, e é desconfortável para o corpo, não se pode dormir muito tempo com isso, e o mantém acordado para orar.

É por isso que uma história do livro Tadhkirah al-Awliyya [6] foi escrita, de acordo com alguém (Sufiyan Thuri) que encontrou o Imam Ja’far Sadiq, que a paz esteja com ele, na estrada. Ele viu que o Imam estava vestindo uma roupa cara feita de seda e lã (khazz), [7] então, foi até ele e depois de cumprimentá-lo disse:

Ó filho do Apóstolo de Alá! Não é apropriado para você, como o filho do Apóstolo de Alá, usar roupas suaves luxuosas.” O Imam pegou sua mão e colocou-a debaixo da manga. Ele viu que o Imam estava usando uma roupa interior de lã grosseira que irritava o seu braços. O Imam disse: “Esta é para Deus,” enquanto mostrava a roupa de lã; “E esta é para as pessoas,” disse, mostrando para a roupa macia.

[6] Sheik Faríd al-Dín ‘AììàrTadhkirah al-Awliyyà, Muåammad Isti’làmí, ed. (Tehran: Zavvàr, 1363/1984), [15].

Dr. Hajj Nour Ali Tabandeh

A ocorrência de tal história e tal encontro, mesmo que não acreditemos que realmente acontecido, na escrita de Sheik ‘Attar, que diz que a peça de lã é para Deus, indica que os grandes Sufis, que na época tinham como chefe Hazrat Ja’far Sadiq, considerava o vestuário de lã áspero como um sinal de adoração e preparação para o culto.

Em qualquer caso, aparentemente, é mais adequado considerar a palavra Sufismo (tasawwuf) como sendo derivada da raiz (lã). Na verdade, existe um outro nome que foi aplicado a este grupo, [isto é, os Xiitas] que ganhou repercussão. Da mesma forma, vemos isso hoje, por exemplo, em um país cujo governo é contra o Islã e que se proclama secular, dissolver um partido Islâmico e destruír seu nome; mas o mesmo grupo sob um nome diferente forma um outro partido, e por um tempo continua suas atividades. O Xiismo procedeu da mesma maneira, isto é, na história do Islamismo, o Xiismo se mostrou sob outro nome, ou seja, Sufismo.

A base do Sufismo desde o início, em relação às doutrinas, foi assim porque o sucessor do Profeta é ‘Ali, e porque entre os companheiros do Profeta, ‘Ali era o mais excelente. No entanto, na prática eles tinham vários estilos de vida, da mesma maneira que os Xiitas acreditam que todas as idades têm seus próprios requisitos. ‘Ali, por exemplo, teve uma vida exteriormente humilde e pobre. Apesar de ter fundado muitas palmeiras através de seu próprio trabalho, recebeu doações de todos e nunca tirou proveito próprio. Em contraste, Imam Ja’far Sadiq teve uma vida externa de luxo e riqueza. Cabe ao Imam, a grande pessoa de seu tempo, decidir de acordo com as demandas dos tempos em que vive. Assim, no decorrer da história, descobrimos que às vezes o Sufismo assume a forma de ascetismo e reclusão, e em outras ocasiões, ou no caso de certas pessoas, aparece como atividade social e luta (struggle).

Do mesmo modo, observamos diferentes estilos de vida ao longo da história, mas nenhum deles é a base do Sufismo. O fundamento do Sufismo é nada mais que um executor (wasayat) [8] e walayat, e não outros assuntos estranhos.

Os outros assuntos surgiram ao longo da história por causa das demandas dos tempos. O mesmo erro que surgiu em relação ao Xiismo e a palavra tashayyu’ também apareceram em relação ao Sufismo. Alguns dizem que pela primeira vez apareceu no segundo/oitavo século. Consequentemente, todo escritor parece ter sua própria teoria, no entanto, o Sufismo é a própria essência e significado de Xiismo.

[7] Existe uma razão para as diferenças nas vidas dos Imams, por exemplo, Hazrat Ja’far Sadiq e Imam Hasan com ‘Ali, e este é outro problema que temos de passar por um momento.

[8] Wasayat significa que o sucessor deve ser nomeado de acordo com o testamento final do antecessor, não pela eleição do povo.

Na história do Xiismo, algumas pessoas prestaram mais atenção às regras da lei Islâmica, e apresentaram suas teorias a respeito disso. São eles os fuqaha (juristas da lei Islâmica).

Outro grupo de Xiitas deu prioridade às questões doutrinárias e ao caminho da perfeição em relação a Deus. Estes são os Sufis. Na verdade, eles são, como a expressão a seguir, como os dois braços de um corpo. No entanto, muitas vezes, sem perceber isso, alguns afirmam que há oposição entre esses dois grupos. Muitos Orientalistas fazem o mesmo, porque quanto mais oposição entre eles, mais os Orientalistas se beneficiam.

A base e o espírito do Islã estão no Xiismo e o espírito do Xiismo está no Sufismo. O Sufismo não é outro senão o Xiismo, e o Xiismo real nada mais é que o Sufismo.

É aqui que os pesquisadores encontraram outro terreno, mas um terreno que também cria cismas. Somente Deus sabe se isso foi deliberado ou não intencional. De qualquer modo, alguns dizem que o Sufismo foi criado para destruir o Xiismo e para estragar o Islã. Eles fizeram alguns pseudo-Sufis a seu critério, e se referiram a alguns pretendentes do Sufismo que não prestaram atenção aos assuntos espirituais ou cujos links de suas fontes estavam partidos. Como no Sufismo, de acordo com os princípios do Xiismo, apenas aqueles que foram explicitamente nomeados pelo guia anterior e um pir (um santo Muçulmano ou um homem santo), merecem liderança e orientação das pessoas, e todos concordam que essa permissão de orientação continuará até o dia da ressurreição.

No entanto, os doze Xiitas acreditam que durante a ocultação do Imam, aquele que for nomeado pelo Imam só tem o direito de fazer bay’at [9] com os fiéis. Ele também tem o direito de nomear seu sucessor, de modo que a corrente continue. Portanto, aquele que a permissão chegar de mão em mão ao Imam tem liderança legal, legítima e orientação, e de outra forma sua corrente estará partida. Quantos tiveram suas correntes quebradas, mas com base em suas próprias opiniões pessoais propuseram questões como Sufismo que não fazem parte do Sufismo. Há um pequeno número de pesquisadores que notaram isso. Por exemplo, em um livro que foi traduzido em Farsi, Místicos e Comissários, [10] os autores, Alexander Bennigsen e S. Enders Wimbush, analisaram o Sufismo na antiga União Soviética e disseram que o Sufismo não é uma seita e nem um movimento de renegados, mas uma parte inseparável do verdadeiro Islã. Os analistas Ocidentais, em particular, são aptos para fecharem os olhos para essa realidade, e se referem repetidamente ao Sufismo como um fenômeno estranho ao Islamismo, e mesmo como um desvio disso. Desde as antigas forças da ex-União Soviética que se opunham à religião estavam no poder do governo, o pesquisador que investigar as condições na União Soviética chegará a esta conclusão [que o Sufismo não é separado do Islamismo].

Outro argumento frequentemente mencionado por alguns Orientalistas é que o Xiismo, e de acordo com outros, o Sufismo, era uma maneira pela qual os Iranianos combatiam a governança dos Árabes depois que os mesmos conquistaram seu país e derrotaram sua dinastia real e governo. Eles argumentam que foi assim que os Iranianos mostraram sua reação, e que a história de grande parte da resistência Sufi deixa claro que foi isso que levou à libertação do Irã das correntes estrangeiras.

No entanto deve-se notar que não foram os Árabes, mas o Islã que conquistou o Irã. Por exemplo, quando os exércitos do Islã vieram ao Irã, conseguiram sua conquista até a cidade de Rayy, e as pessoas se tornaram Muçulmanas. Depois, todos aceitaram o Islã de bom grado.

[9] Com relação ao bay’at, veja o artigo do mesmo autor.

[10] Traduzido em Farsi por Afsaneh Munfarid (Teerã: 1998), p. 214.

A comparação de dois assuntos abrange o caminho para uma compreensão da causa disso. Por um lado, é narrado que Anushiravan convidou os ricos comerciantes do bazar e pediu-lhes que lhe emprestasse dinheiro para realizar a guerra. Depois que terminou seu discurso, um sapateiro disse: “Estou pronto para lhe dar todo valor que você precisa, não como um empréstimo, mas como um presente. Existe apenas uma condição, que você permita que meu filho se alfabetize e estude.” Anushiravan ficou bravo: “Eu deveria permitir que o filho de um sapateiro estude!?” Ele não aceitou. Por outro lado, os comandos do Islã “Procurar o conhecimento é obrigatório para todos os Muçulmanos.” Da mesma forma, após a Batalha de Badr, quando os cativeiros foram trazidos e suas famílias vieram pagar o resgate, o Profeta disse: “Qualquer um desses cativos que ensinar a ler e escrever para sete Muçulmanos será libertado.”

Compare essas duas questões — além do aspecto espiritual, se você apenas olhar para o aspecto externo — quando dois exércitos, um com o primeiro tipo de pensamento e o último, confronte-os, quem sairá vitorioso?

De qualquer forma, é o Islã que conquistou o Irã. Os Iranianos sempre gostaram do Islã e dos Muçulmanos. Todas as suas revoluções contra governos estrangeiros, se fossem realizadas ao mesmo tempo preservando o Islã, alcançariam seus objetivos, como a insurreição de Abu Muslim Khorasani, ou a insurreição de Sarbedaran [contra o Mongóis], ou os Safavids, dos quais os dois últimos eram Sufis, entre outros. Aqueles que fizeram uma revolução apenas pela independência do Irã, mas que estavam realmente contra Islã, não foram vitoriosos. Pessoas como Hashim ibn Hakim (conhecido como al-Muqna’), Maziyar, Babak e Afshin são desse tipo.

Por essa razão, suas dinastias não sobreviveram e muitos deles desapareceram após um curto período de tempo. Não sobrou um traço sequer do seu pensamento. No entanto, os Orientalistas ignoram todos esses fatos e consideram o Sufismo e o Xiismo como revoltas Iranianas contra os Árabes e as interpretam como armas dessa luta, embora o Sufismo seja o mesmo que o Xiismo e o Xiismo é o mesmo que o Islamismo. Evidências históricas disto encontram-se no fato de que a revolta dos Safavids fez com que o Xiismo dominasse o Irã.

Outra questão que causa confusão e erros sobre o problema é que: é dito que o Sufismo é algo diferente de ‘irfan. Verdade, com relação às palavras, elas são duas coisas: nossas expressões diferem, mas Sua beleza é uma. [11] Esta dúvida foi criada há muito tempo; mesmo muitos dos opositores do Sufismo que escreveram refutações sobre isso expressaram sua aprovação do ‘irfan. Eles admitem que alguns estudiosos consideram que o ‘irfan e o Sufismo são os mesmos, mas negam isso.

Agora, vamos ver brevemente o que o termo irfan significa. Literalmente, ‘irfan é conhecer. Conhecer tem estágios diferentes. Por exemplo, Abraão, que a paz esteja com ele, que sabia, isto é, por sua própria natureza inata (fitrat) entendeu que este mundo tem um Deus e esse Deus governa todas as coisas, tinha algum conhecimento. Quando viu uma estrela, ele disse: “Este é o meu Deus.” Era a estrela brilhante, dizem ter sido Sirius. Mas quando a estrela se pôs, ele disse: “Eu não gosto dos que se põem.”

[11] Este é um ditado Árabe, comumente utilizado na cultura Iraniana e Árabe.

[12] Quando a lua apareceu — a qual, como regra, era uma Lua cheia — ele disse: “Este é o meu Deus.” Mas depois que ela se pôs, pensou novamente e disse: “Isto também se põe. Então, também, não é o Deus do mundo.” Isso significa que ele chegou a um estágio em que sabia que existia um Deus, e que esse Deus tem poder e grandeza, mas que, em sua imaginação primitiva, considerou que este Deus era corpóreo. Então o sol nasceu. Ele disse: “Certamente, isso é Deus.” Mas também se pôs, e ele então disse: “Eu viro o meu rosto para Aquele que criou os céus e a terra.”[13]

Nessa momento, em que reconheceu e entendeu que o Deus por Quem procurava não é um corpo e não é corpóreo, e que é Ele quem criou o céu, a estrela, a lua e sol.

Estes são estágios gnósticos (‘irfani). O estágio mais primitivo da gnose (‘irfan) foi este, o primeiro, no qual Abraão não sabia se o Deus que o criou era corpóreo ou não; que tipo de Deus é Ele? Gradualmente, chegou ao ponto em que Deus no Alcorão diz: “Dessa forma, mostramos a Abraão o reino (malakut) dos céus e a terra.” [14] Assim, todos os que conhecem Deus e percebem que existe um Deus tem um grau de gnose, porque a gnose não é uma questão absoluta. Isto é algo que, como dizem os filósofos, é formado (tashkiki), como a luz e a fé, que tem graus. Começa do menor grau, e se Deus o conceder sucesso, atinge graus mais elevados.

Por exemplo, imagine alguém em um deserto em que lá não há habitação. À distância, ele vê um ponto preto no ar limpo (este ar limpo deve ser entendido como a sua pura intenção). Ele só sabe que é um ponto preto, na medida em que sabe apenas que há algo lá. Quando se aproxima mais um pouco, vê que esse ponto preto se torna uma linha reta. Então ele reconhece, isto é, adquire a gnose, de que aquela coisa longe é um corpo longo. Se continua se aproximando e avança um pouco mais, verá que o corpo tem diferentes ramos. Percebe que é uma árvore com ramos. À medida que avança, vê que nos ramos há formas como folhas. Ele percebe que a árvore tem folhas, isto é, está viva. Ele vê que elas se agitam e sussurram. Entende que são afetadas pelo vento. Ao avançar, percebe que há coisas penduradas na árvore. Percebe que a árvore dá frutos. Avançando ainda mais, vê que o a fruta é uma maçã, ou tal e tal fruta. Assim, ele encontra a gnose (‘irfan). Quando chega bem perto e prova a maçã ou qualquer outra fruta, descobre que é doce.

Os mesmos graus de gnose aparecerão para quem segue o caminho do conhecimento de Deus. A gnose e o conhecimento de Deus ocorre da mesma maneira. Portanto, quando alguém é identificado como um gnóstico (‘arif) não significa que tenha algo do qual os outros estão absolutamente privados, e que ele tenha tudo. Ser gnóstico também tem graus. Existe um gnóstico e aquele que é mais que um gnóstico. O caminho para alcançar a perfeita gnose, isto é, a perfeição da gnose, é chamado de Sufismo. Isso significa que o Sufismo é a maneira prática de alcançar a gnose (‘irfan).

[12] Alcorão (6:76). [13]  Alcorão (6:79). [14] Alcorão (6:75).

Assim, o Sufismo e a gnose (‘irfan) são duas palavras que significam a mesma coisa, ou elas podem ser pensadas como os dois lados da mesma moeda, ou podemos dizer que a primeiro mostra o caminho e a último o resultado da caminhada. De qualquer modo, ambas são um e dois.

A oposição que agora volta e meia é reivindicada no Irã, existindo entre a gnose e o Sufismo, pode ser devido à má situação política. Eles não podem dizer coisas ruins sobre a gnose (‘irfan) porque muitas das grandes figuras a apreciaram, e isto é geralmente venerado. Por outro lado, não podem aceitar o Sufismo porque pode danificar sua vida mundana. Por isso, dizem que a gnose (‘irfan) é algo diferente do Sufismo. Há pessoas que anteriormente estavam seguindo o caminho do Sufismo e mais tarde se opuseram a ele e escreveram rejeições a ele. Para fortalecerem suas rejeições e para se desvincularem de seus passados, dizem que a gnose (‘Irfan) é bom, mas que é diferente do Sufismo. Continuam na medida em que muitos da geração mais velha estavam equivocados e pensaram que estes dois eram um. A partir disso é evidente que muitas das grandes figuras do passado atestaram esta verdade.


Tradução: Tiao Cazeiro — Muhammad e os Sufis

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