QUANDO E POR QUE O OCIDENTE COMEÇOU A ‘DEMONIZAR’ MUHAMMAD

Fonte/Source: When and Why the West Began to ‘Demonize’ Muhammad


QUANDO E POR QUE O OCIDENTE COMEÇOU A ‘DEMONIZAR’ MUHAMMAD

Por Raymond Ibrahim

22 de Janeiro de 2017

PJ Media

Para entender qualquer fenômeno, deve-se primeiro compreender suas raízes. Infelizmente, não só todas as discussões sobre o conflito entre o Islã e o Ocidente tendem a limitar-se à era moderna, como também quando o passado e as origens são aludidas a antítese da realidade é apresentada: ouvimos que o Ocidente — um anacronismo para a Europa, ou melhor ainda, a Cristandade — começou o conflito, demonizando intencionalmente os Muçulmanos pacíficos e tolerantes e seu profeta para justificar suas aspirações “coloniais” no Oriente, que supostamente começaram com as Cruzadas.

O autor mais vendido sobre o Islam e o Cristianismo, Karen Armstrong, resume a visão padrão:

“Desde as Cruzadas, as pessoas no Ocidente veem o profeta Muhammad como uma figura sinistra… Os monges eruditos da Europa estigmatizaram Muhammad como um líder guerreiro cruel que estabeleceu a falsa religião do Islã pela espada. Eles também, com inveja mal disfarçada, o repreendeu como ganancioso e pervertido sexual numa época em que os papas tentavam impor celibato ao clero relutante.”

Que nada poderia estar mais longe da verdade é um eufemismo. Desde as primeiras referências Cristãs aos Muçulmanos no século VII, ao apelo do Papa Urbano à Primeira Cruzada, mais de quatro séculos depois, os “Sarracenos” e seu profeta foram consistentemente abominados.

Assim, escrevendo por volta de 650, John de Nikiu, Egito, disse que os “Muçulmanos” — o Copta é, aparentemente, o primeiro não-Muçulmano a registrar essa palavra — não eram apenas “inimigos de Deus”, mas adeptos da “detestável doutrina da besta”, isto é, Mohammad [sic]”[i] O pergaminho mais antigo que alude a um profeta guerreiro foi escrito em 634 — apenas dois anos após a morte de Muhammad. Ele descreve um homem perguntando a um culto escriba Judeu o que ele sabe sobre “o profeta que apareceu entre os Sarracenos”. O homem idoso, “com muitos gemidos”, respondeu: “Ele está iludindo. Para que os profetas chegam com espadas e carruagens? De fato, esses eventos de hoje são obras da confusão… Você encontrará nada de verdadeiro no dito profeta, exceto o derramamento de sangue humano.”[ii] Outros confirmaram que “não havia verdade para ser encontrada no profeta, apenas o derramamento do sangue dos homens. Ele diz também que tem as chaves do paraíso, o que é incrível.”[iii]

Muhammad é pela primeira vez mencionado pelo nome em um fragmento Siríaco, também escrito em torno de 634; embora apenas as frases dispersas são inteligíveis, todas giram em torno do derramamento de sangue: “muitas aldeias [em Homs] foram devastadas pela matança [dos seguidores] de Muhammad e muitas pessoas foram assassinadas e [levadas] como prisioneiras de Galiléia a Beth… “Cerca de dez mil” pessoas foram massacradas nas “proximidades de Damasco…”[iv] Escrevendo por volta de 640, Thomas Presbyter menciona Muhammad:

“houve uma batalha [Adjnadyn?] entre os Romanos e os Árabes de Muhammad na Palestina, doze milhas a leste de Gaza. Os Romanos fugiram… Cerca de 4.000 aldeões pobres da Palestina foram mortos no local… Os Árabes devastaram toda a região”; eles até “escalaram a montanha de Mardin e mataram muitos monges lá nos mosteiros de Qedar e Bnata”.

Uma homilia Copta, também escrita por volta de 640, aparentemente é o primeiro registro associando os invasores com uma (embora hipócrita) religiosidade. Ela aconselha aos Cristãos a jejuarem, mas não “como os opressores Sarracenos, que se entregam à prostituição, ao massacre e levam ao cativeiro os filhos dos homens, dizendo: “nós dois jejuamos e rezamos”. [V]

Ao final do sétimo e início do século VIII, Cristãos cultos começaram a examinar as reivindicações teológicas do Islamismo. A imagem dos Muçulmanos foi de mal a pior. O Alcorão — aquele “pequeno livro mais desprezível e mais inepto do Árabe Muhammad” — visto como “cheio de blasfêmias contra o Altíssimo, com toda a sua feia e vulgar imundície”, particularmente a pretensão de que o céu equivale a um “bordel sexual” [sic], citando Nicetas Byzantinos, do século VIII, que possuía e estudou de perto uma cópia dele. Alá foi denunciado como uma divindade impostora, para ser específico, Satanás: “Eu anatematizo (excomungo) o Deus de Muhammad”, observa um rito canônico bizantino. [Vi]

Porém foi o próprio Muhammad — a fonte do Islam — que especialmente escandalizou os Cristãos: “O caráter e a história do Profeta genuinamente chocou a todos; ficaram indignados por ser aceito como uma figura venerada.”[vii] De tempos em tempos, nada é tão condenado, Muhammad aos olhos dos Cristãos, quanto a sua própria biografia, escrita e venerada pelos Muçulmanos. Por exemplo, depois de proclamar que Alá permitiu aos Muçulmanos quatro esposas e concubinas ilimitadas (Alcorão 4:3), declarou mais tarde que Alá tinha entregado uma nova revelação (Alcorão 33: 50-52) oferecendo a ele, apenas ao profeta, uma dispensa para dormir e se casar com tantas mulheres quanto quisesse. Em resposta, ninguém menos que sua esposa favorita, Aisha, a “Mãe dos Fiéis”, fez um comentário espirituoso: “Eu sinto que o teu Senhor se apressa em cumprir suas vontades e desejos.” [Viii]

Com base, nessa época, em fontes Muçulmanas, os primeiros escritores Cristãos de origem Semítica — entre eles principalmente São João de Damasco (c. 676) — articulou vários argumentos contra Muhammad que permanecem no cerne de todas as polêmicas Cristãs contra o Islam até hoje. [ix] O único milagre que Muhammad realizou, argumentaram, foi invadir, matar e escravizar aqueles que se recusaram a submeter-se a ele — um “milagre que até assaltantes comuns e bandidos da estrada podem realizar”. O profeta claramente colocou qualquer palavra que melhor lhe servisse na boca de Deus, assim “simulando uma revelação para justificar sua própria indulgência sexual” [x]; tornou sua religião atraente e justificou seu próprio comportamento, aliviando os códigos sexuais e morais dos Árabes e fundindo a noção de obediência a Deus com a guerra para engrandecer a si mesmo com saque e escravos.

Talvez o mais importante seja a negação e a guerra de Muhammad sobre todas as coisas distintamente Cristãs — a Trindade, a ressurreição e a “cruz, que eles abominam” — provou aos Cristãos que ele era o agente de Satanás. Em suma, “o falso profeta”, “o hipócrita”, “o mentiroso”, “o adúltero”, “o precursor do Anticristo” e “a Besta”, tornaram-se epítetos tradicionais para Muhammad entre os Cristãos por mais de mil anos, começando no final do século VII. [xi] Na verdade, para pessoas politicamente corretas ou excessivamente sensíveis que consideram qualquer crítica ao Islamismo “Islamofobia”, a grande quantidade e o conteúdo cáustico de mais de um milênio de escritos Ocidentais sobre Muhammad pode ser muito extraordinário para ser acreditado.

Até os historiadores modernos beneficentes, como o Norman Daniel de Oxford — que de forma cavalheira deixa as palavras mais severas contra Muhammad em seu latim original na sua pesquisa sobre as atitudes Cristãs primitivas para com o Islã — deixa isso claro: “Os dois aspectos mais importantes da vida de Muhammad, acreditavam os Cristãos, eram sua licença sexual e o uso da força para estabelecer sua religião”; para os Cristãos, a fraude foi o montante da vida de Muhammad… Muhammad foi o grande blasfemo, porque fez a religião justificar o pecado e a fraqueza”; devido a tudo isso, “não pode haver dúvida sobre a extensão do ódio Cristão e a desconfiança de Muçulmanos.”

Mesmo as reivindicações teológicas por trás da jihad foram examinadas e ridicularizadas. Em sua entrada por volta de 629/630, Theophanes o Confessor, escreveu:

“Ele [Muhammad] ensinou aos seus súditos que aquele que mata um inimigo ou é morto por um inimigo vai para o Paraíso [Alcorão 9:111]; e disse que nesse paraíso era permitido comer e beber e ter relações sexuais com mulheres, e tinha um rio de vinho, mel e leite e que as mulheres não eram como as daqui, mas diferentes, e que a relação sexual era de longa duração e o prazer contínuo; e outras coisas cheias de libertinagem e estupidez”. [xii]

Da mesma forma, em uma correspondência com um associado Muçulmano, o Bispo Theodore Abu Qurra (c.750), um Cristão Árabe, ironizou:

“Já que você diz que todos aqueles que morrem na guerra santa [jihad] contra os infiéis vão para o céu, você deve agradecer aos Romanos por matarem tantos de seus irmãos”. [xiii]

Em suma, a narrativa generalizada de que as visões Europeias de Muhammad como uma “figura sinistra”, um “cruel senhor da guerra” e um “ganancioso e pervertido sexual” começaram como pretexto para justificar a cruzada do século XI, que é a fonte de todas as desgraças entre o Islam e o Ocidente — é uma absoluta mentira. Quanto mais cedo, mais pessoas no Ocidente entenderem isso — compreenderão as raízes da animosidade — mais cedo a verdadeira natureza do conflito atual (ou melhor, em andamento) se tornará clara.

———————–

[i] Donner, Fred (ed), The Expansion of the Early Islamic State, 2008, 122.

[ii] Ibid., 115

[iii] Hoyland, Robert G, Seeing Islam as Others Saw It, 1997, 57.

[iv] Ibid., 117.

[v] Ibid., 119-121.

[vi] Bonner, Michael (ed), Arab-Byzantine Relations in Early Islamic Times, 2004, 217-226; see also John Tolan, Saracens, 2002, 44.

[vii] Daniel, Norman,  Islam and the West: The Making of an Image, 1962, 67.

[viii] Sahih Bukhari 6:60:311.

[ix] Muitos acadêmicos modernos retratam esse fato — que as polêmicas feitas pela primeira vez contra o Islam continuaram sendo feitas com pouca variação séculos mais tarde — como prova de que os Cristãos medievais copiaram e imitaram os primeiros argumentos contra o Islam sem muita reflexão. Pelo contrário, porque essas polêmicas anteriores eram tão abrangentes e bem pensadas, continuam a ser citadas até hoje por ex-Muçulmanos como motivo para apostatar. [Daniel, 4.

[xi] All quotes from John of Damascus, in Bonner, 217-226.

[xii] The Chronicle of Theophanes, trans. Cyril Mango, 1997, 465.

[xiii] Bonner, 223


Tradução: Tião Cazeiro — Muhammad e os Sufis

Anúncios

Deixe um Comentário...

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s