O Ocidente Pró-Islâmico: Nasceu Há 500 Anos

Fonte/Source: The Pro-Islamic West: Born 500 Years Ago Today


 

O Ocidente Pró-Islâmico: Nasceu Há 500 Anos

Por Raymond Ibrahim

31 de Outubro de 2017

FrontPage Magazine

Há quinhentos anos, em 31 de Outubro de 1517, um monge Católico chamado Martinho Lutero pregou suas 95 teses na porta de uma igreja Alemã, lançando assim o que seria conhecido como a Reforma Protestante. Qualquer outra coisa pode ser dita sobre ele, Lutero involuntariamente iniciou algo a mais muitas vezes negligenciado. Como o historiador Europeu Franco Cardini explica: “A Reforma produziu um resultado lógico embora inesperado: um impulso definitivo à avaliação positiva do Islã e, portanto, ao nascimento e desenvolvimento de uma postura pró-Islâmica, geralmente convencional e educada” no Ocidente.

Assim, embora Lutero tenha mantido a visão Cristã tradicional do Islã — denunciando o Alcorão como um livro “maldito, vergonhoso, desesperado” cheio de “terríveis abominações” — condenou o conceito de cruzada, que havia sido essencial para a sobrevivência de alguns Cristãos Europeus, como os da Espanha: desde a sua conquista pelo Islã no século VIII, a Península Ibérica tinha enfrentado onda após onda de incursões Islâmicas que emanavam do Norte da África (especialmente das mãos dos Almorávidas e Almohades, cujo zelo jihadista e bárbaro supera em muito tudo aquilo que o Estado Islâmico (ISIS) é capaz).

Lutero tampouco foi meramente contra a cruzada “lá” (p. ex., para libertar o Santo Sepulcro em Jerusalém, etc.). Em 1517, o mesmo ano em que ele pregou suas teses, o maior império jihadista da história — o dos Turcos Otomanos — absorveu os vastos domínios do sultanato Mameluke no Oriente Médio e Norte da África e, tendo já conquistado grande parte dos Balcãs, prepararam-se para renovar a jihad no coração da Europa. Contra isso, Lutero originalmente pregou a passividade, indo tão longe a ponto de dizer que, embora o sultão Muçulmano “se enfureça mais intensamente assassinando os Cristãos fisicamente… ele, apesar de tudo, nada faz a não ser preencher o céu com santos.” Quando os Turcos marcharam e cercaram as muralhas de Viena em 1529, soldados rebeldes Luteranos foram ouvidos gritando que o “Turco não Batizado” (significando o sultão) era preferível ao “Turco batizado”.

Ao retratar o papa Católico como uma figura mais “Anticristo” do que a figura Anticristã tradicional até então na Europa, o sultão Turco — um cargo mantido por líderes Muçulmanos que haviam sido responsáveis pela matança e escravidão de centenas de milhares de Cristãos em nome da jihad — homens como Lutero e João Calvino, que sustentavam que o profeta Islâmico Muhammad/Maomé e o Papa eram “os dois chifres do Anticristo”, inauguraram uma espécie de relativismo que prevalece até hoje no Ocidente; o de citar instintivamente (frequentemente distorcido) episódios da história Católica para relativizar e minimizar atrocidades Muçulmanas em andamento.

Para ter certeza, a Igreja Católica respondeu com sua própria invectiva “e frequentemente tentou desacreditar a doutrina Protestante ao compará-la ao Islã — Muhammad foi um dos primeiros Protestantes e os Protestantes foram os Sarracenos do último dia”, explica Bernard Lewis. Cardini elabora:

A Reforma gerou mais veementes e coerentes argumentos entre os Cristãos, cujo efeito final favoreceu os Muçulmanos. Tornou-se habitual entre Católicos e Protestantes censurar um ao outro pelos “vícios” da religião e enfatizar que os infiéis [Muçulmanos] exemplificaram a “virtude” correspondente, a qual naturalmente teria sido muito mais adequada aos Cristãos… De fato, os argumentos entre Católicos e Protestantes frequentemente levaram a uma competição sobre qual dos dois poderia prejudicar mais o adversário tecendo louvores ao infiel.

Ao mesmo tempo, Muçulmanos sentavam e riam — para a exasperação de homens sensíveis, como o humanista da Renascença, Erasmus: “Enquanto estivemos interminavelmente lutando entre nós”, argumentou o Holandês, “os Turcos expandiram amplamente seu império ou, melhor, o reinado de terror”. Incidentalmente, por causa da “contenção de Lutero de que aqueles que declaram guerra aos Turcos se rebelam contra Deus, que está punindo nossos pecados [o Catolicismo] através deles [Muçulmanos]”, Erasmus contra-atacou assim “se não for lícito resistir aos Turcos, porque Deus está punindo os pecados de seu povo através deles, então não é mais lícito chamar um médico durante a doença, porque Deus também envia doenças para purgar seu povo de seus pecados”.

Seja como for, o que começou com Lutero foi legado aos líderes Protestantes subsequentes. Isso foi apenas natural; como os primeiros Protestantes e Muçulmanos tinham o mesmo inimigo comum — a Cristandade Católica, particularmente sob a aparência do Sacro Império Romano — o princípio de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” tornou-se um jogo afiado. Em 1535, “essa foi uma das verdades mais amargas”, escreve o historiador Roger Crowley, “que o rei Católico [Charles V] gastou mais tempo, dinheiro e energia lutando contra Franceses e Protestantes do que jamais devotou à guerra contra o [Sultão] Suleiman. “(não é à toa que muitas conquistas Islâmicas em território Europeu ocorreram sob o reinado do “Magnífico”). Da mesma forma, a Rainha Elizabeth I da Inglaterra formou uma aliança com os piratas Muçulmanos da Barbária — que eventualmente escravizaram cerca de 1.3 milhão de Europeus, incluindo, e não foram poucos, da Irlanda e Islândia — contra a Espanha Católica, levando o núncio papal da nação a lamentar que “não existe um mal que não seja concebido por aquela mulher, isso está perfeitamente claro, socorreu Mulocco [Abd al-Malek] com armas, e especialmente com artilharia”.

Em 1683, quando os Turcos vieram novamente para Viena, escravizando e eventualmente matando cerca de 30.000 Cristãos durante o processo — seus principais aliados não-Muçulmanos eram dois Protestantes: o Luterano Húngaro, Imre Thokoly e o Calvinista transilvano, Príncipe Apafi. De fato, o pretexto Muçulmano de marchar em direção a Viena era para fornecer ajuda militar ao Thokoly que estava até então em rebelião contra o Império Austríaco. Dizendo aos colegas comandantes Muçulmanos que “deveriam aproveitar as desordens dos Cristãos cercando o lugar [Viena], cuja conquista asseguraria a de toda a Hungria e os abriria uma passagem para maiores vitórias”. Grande Vizrigo Kara Mustafa mobilizou indiscutivelmente o maior exército Muçulmano que já invadiu a Europa. Antes de partir para o auxílio em Viena, e consciente do papel pernicioso de Thokoly, o rei Polonês, John Sobieski, escreveu “que, se ele queimasse uma palha em território aliado, ou em seu próprio, eu iria queimá-lo junto com toda a família na própria casa dele”.

O fato de que a Reforma Protestante involuntariamente beneficiou o Islã não deve ser interpretado como um ataque à Reforma ou a defesa do Catolicismo. Nem menciona alguma coisa sobre os méritos teológicos, ou as verdades, de ambos… (“eu não sou, fica aqui o registro, Protestante tampouco Católico, e não tenho um cavalo no páreo, por assim dizer”). Em vez disso, o ponto aqui é que as ações de homens falíveis, de ambas persuasões religiosas, tiveram consequências imprevisíveis. E, se as fendas históricas dentro do Cristianismo — começando por Calcedônia em 451, quando a Ortodoxia (não o Catolicismo ou o Protestantismo) se separou — sempre trabalharam para o Islã levar vantagem, não surpreenderia que a maior de todas rupturas Cristãs também tivesse o maior impacto.

Em suma, “A Reforma produziu um lógico e inesperado resultado: um impulso definitivo à avaliação positiva do Islã e, portanto, para o nascimento e o desenvolvimento de uma postura pró-Islâmica, muitas vezes convencional e educada”. Este “educada” e “com postura pró-Islâmica” persegue o Ocidente até hoje. Afinal, não é à toa que a visão ingênua e favorável ao Islã — incluindo a resposta passiva à agressão Muçulmana e o medo autodestrutivo e paralítico de ser visto como membro de uma “cruzada” contra o Islã, — está especialmente enraizado e compromete a segurança de países historicamente Protestantes, incluindo o Reino Unido, Escandinávia, Alemanha, Austrália e os EUA.

É claro que esses pontos de vista têm menos a ver com qualquer coisa intrínseca à teologia Protestante, e mais a ver com uma série de forças históricas que culminaram numa espécie de tolerância acrítica ou insensata diante de qualquer coisa, e tudo no Ocidente — inclusive o terrorismo Islâmico descarado — fica evidente num fato irônico: hoje é o papa Católico — um papel tradicionalmente preenchido pelos maiores e mais vociferantes oponentes do Islã — que exibe uma determinação sem paralelo para empoderar Muçulmanos e lavar a imagem do Islã.


Não deixe de ler: Lutero, Islã e as Mentiras que Paralisam


Tradução: Tião Cazeiro — Muhammad e os Sufis

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