Lutero, Islã e as Mentiras que Paralisam

Fonte/Source: Luther, Islam, and the Lies that Cripple


Lutero, Islã e as Mentiras que Paralisam

Por Raymond Ibrahim

15 de Novembro de 2017

FrontPage Magazine

Em “Expansão Do Islã Por Toda A Europa: Não É Culpa Do Martin Lutero“, um tal de Paul Gottfried finge responder ao meu artigo, “O Ocidente Pró-Islâmico: Nasceu há 500 anos“. Enquanto muitos de seus próprios leitores viram e expuseram suas falsas declarações na seção de comentários do meu blog (reproduzido no final deste artigo) mais detalhadamente do que eu nunca teria feito, vale a pena examinar a peça de Gottfried apenas pelas lições importantes em torno dela.

Primeiro, se você procura um exemplo de ou está incerto sobre o que significa a “Falácia do Espantalho” — tipicamente definido como “dando a impressão de refutar o argumento de um oponente, enquanto refuta um argumento que não foi apresentado pelo oponente” — então não procure nada mais do que a “refutação” de Gottfried, que exemplifica a Falácia do Espantalho de maneira muito especial, começando pelo título: “Expansão Do Islã Por Toda A Europa: Não É Culpa De Martin Lutero”. Bravo, Gottfried, que visão! Mas quem disse que “a expansão do Islã por toda a Europa” foi culpa de Lutero? Bem, se você lê a peça de Gottfried sem conferir as suas reivindicações contra o meu artigo, aparentemente eu acusei Lutero. Claro, de volta ao mundo real, isso não aconteceu. Na verdade, como alguém que acabou de escrever um livro (prestes a ser publicado) sobre a história da jihad Islâmica contra a Europa — a qual, pelo menos 75 por cento, ocorreu antes, não depois de Lutero — a afirmação me atingi, mais do que a maioria, de tão absurda.

A próxima distorção óbvia de Gottfried aparece em sua frase de abertura: “Em uma das estranhas manifestações de piedade Católica equivocada ou repugnância para com a Reforma Protestante, exibida por ocasião do 500º aniversário, Raymond Ibrahim revela uma versão bizarra do jogo de culpa.” Abordarei a tal “repugnância” mais adiante; por enquanto, pergunto por que Gottfried oferece, como possibilidade, de eu ter sido motivado por “piedade católica equivocada” quando escrevi claramente que “eu não sou, apenas para registro, Protestante tampouco Católico”?

Apenas duas conclusões existem: Gottfried não leu o meu artigo (o que é patético para alguém reivindicando a “refutação” disso), ou então está devidamente deturpando. Embora o meu primeiro instinto se incline para o primeiro, outras “técnicas” empregadas por Gottfried apontam para uma decepção intencional. Por exemplo, ele nunca me cita como dizendo as coisas que ele afirma que eu digo — da mesma forma como eu o cito aqui — exceto em duas ocasiões: em ambas, afirma que eu escrevi que Lutero pediu “passividade” contra os hostis invasores Muçulmanos. Na realidade, escrevi que “Lutero originalmente pregava a passividade”, o que, é claro, e um fato indiscutível. Para que não haja confusão sobre esse ponto, juntamente com as várias citações e fontes inseridas no meu artigo original — incluindo as próprias palavras de Lutero, que, embora o sultão Muçulmano “se enfureça mais intensamente assassinando os Cristãos fisicamente… ele, apesar de tudo, nada faz a não ser preencher o céu com santos” — aqui estão mais algumas autoridades Ocidentais:

De acordo com S.J. Allen e Emilie Amt, professores universitários e editores do The Crusades: A Reader: “O líder protestante, Martin Lutero, havia pregado anteriormente contra uma cruzada Otomana, acreditando que era uma causa Católica e, portanto, errada aos olhos de Deus. Lutero mudou de ideia depois de Viena, quando a ameaça se aproximou de casa… “ (p. 413).

Idem para Thomas Madden (historiador das Cruzadas): “Lutero deu o tom do pensamento Protestante diante da ameaça Turca. Quando [Papa] Leo X ainda estava tentando ressuscitar sua cruzada em 1520, Lutero escreveu que “lutar contra os Turcos é opor-se ao julgamento que Deus visita em consequência das nossas perversidades através deles”. Na visão de Lutero, as cruzadas contra os Otomanos eram guerras contra Deus… Após o cerco de Viena em 1529, a ameaça Turca tornou-se muito mais terrível para os Alemães, e assim Lutero mudou de opinião”(A New Concise History of the Crusades, pp. 209-210).

Seja como for; a questão relevante aqui é, por que Gottfried me citou intencionalmente duas vezes — dizendo que Lutero pregava a “passividade” quando escrevi que ele “originalmente pregava a passividade”? Simples: a minha formulação está correta, enquanto algo tão “sutil” como omitir o meu qualificador (“originalmente”) leva à formulação de que Gottfried precisa eliminar o seu espantalho.

Essa é uma discussão interminável, mas agora esse ponto deve estar claro. Qualquer pessoa interessada em mais observações sobre as distorções de Gottfried recomendo o comentário de Brian Kelly reproduzido no final deste artigo.

Quanto à segunda e mais importante lição. Embora muitos Protestantes tenham decidido concordar com o meu artigo original, para outros, a Reforma e especialmente Lutero parecem ser irrepreensíveis. Agora, por outro lado, entendo a frustração, especialmente entre os Protestantes pro-Israel: eles tiveram que se desculpar e ficaram envergonhados com o notável antissemitismo de Lutero — e serão amaldiçoados se o Islã também for colocado aos pés de Lutero; como consequência, a resposta automática a qualquer reivindicação que associe negativamente Lutero ao Islã.

Mas isso desvirtua completamente o foco do meu artigo original: rastrear como e por que a imagem do Islã melhorou drasticamente no Ocidente ao longo dos últimos séculos; e sim, gostem ou não, o Protestantismo e seus líderes desempenharam um importante papel, se não intencional, nessa mudança, particularmente usando o “bom” e “nobre” Islã para contrastar e demonizar o “mal” e “corrupto” Catolicismo. Esta não é uma visão “controversa”; é um fato comprovado e confirmado por muitos historiadores, incluindo Protestantes. Tampouco o simples reconhecimento desse fato reflete, como afirma Gottfried, “repugnância [da minha parte] pela Reforma Protestante”.

Reiterando — e para aqueles com dificuldade de leitura ou pior — eis aqui o que escrevi no meu artigo original:

O fato de que a Reforma Protestante involuntariamente beneficiou o Islã, não deve ser interpretado como um ataque à Reforma ou a defesa do Catolicismo. Nem menciona alguma coisa sobre os méritos teológicos, ou as verdades, de ambos… Em vez disso, o ponto aqui é que as ações de homens falíveis, de ambas persuasões religiosas, tiveram consequências imprevisíveis. E, se as fendas históricas dentro do Cristianismo — começando por Calcedônia em 451, quando a Ortodoxia (não o Catolicismo ou o Protestantismo) se separou — sempre trabalharam para o Islã levar vantagem, não surpreenderia que a maior de todas rupturas Cristãs também tivesse o maior impacto.

Aliás, a ironia de tudo isso é que sou eu, não aqueles que reverenciam Lutero, que emula sua abordagem. Pois na verdade não encontro um homem — não apenas papas, mas Protestantes, incluindo seu fundador — infalível. (Portanto, aqui estou, não posso inventar outro).

Neste ponto, chegamos ao máximo de todas as lições: enquanto um número crescente de pessoas Ocidentais está ciente de que o Islã é hostil ao outro, muitos deixam de progredir além desse simples truísmo. O resultado é que veem apenas a metade da imagem: sim, o Islã é um credo intrinsecamente militante e supremacista — mas não é por isso que o Ocidente está sendo aterrorizado por ele. Em vez disso, o Ocidente está sendo aterrorizado por causa do Ocidente. Longe vão os dias em que os Muçulmanos, por meio da pura força, ameaçaram e invadiram o Ocidente. Hoje, o Islã está sendo habilitado e capacitado inteiramente graças a uma série de filosofias Ocidentais e “ismos” distorcidos que vem metastizando e paralisando a população, os impedindo de responder efetivamente à estrada suicida em que sua civilização está acelerando.

Assim sendo, é necessária uma pequena introspeção.

Com certeza, aqueles que insistem que o Islã é intolerante e violento — ao mesmo tempo insistindo que nada associado a eles ou deles pode ser implicado na equação — devem considerar se estão consignando-se a um estado permanente de limbo, eternamente dando um passo à frente e outro atrás na luta contra a jihad.

Talvez o comentário mais abrangente que Gottfried recebeu tenha vindo do comentarista Brian Kelly. Porque continua aparecendo como “aguardando moderação” sob o artigo de Gottfried. Seguem as partes relevantes:

Tudo a partir do título do artigo baixo é uma falsa representação do artigo de Ibrahim. O artigo criticado aqui por Gottfried simplesmente não existe. O artigo que Gottfried se refere simplesmente não expressa o que Gottfried diz. Vamos dar alguns exemplos, começando pelo título:

Título de Gottfried: EXPANSÃO DO ISLAM POR TODA A EUROPA: NÃO É CULPA DE MARTIN LUTERO

Por acaso Ibrahim mencionou que a expansão da Islã na Europa foi culpa de Martin Lutero? Na verdade, e isso está bem claro, Ibrahim desautorizou essa afirmação.

Gottfried: “A versão bizarra de Raymond Ibrahim do jogo de culpa”.

O que se segue é a versão de Gottfried do jogo de culpa, do qual Ibrahim nunca participou, e até mesmo desautorizou.

Gottfried: “ele coloca a culpa da expansão Turca Muçulmana por toda a Europa Central e Oriental no século XVI na porta de Martinho Lutero”.

Não, ele não culpa. Por que Gottfried CITA Ibrahim culpando Martin Lutero? Resposta: porque Ibrahim não culpa Martinho Lutero.

Gottfried: “[sugerindo que Ibrahim disse] Se esse monge rebelde não tivesse pregado suas noventa e cinco teses à porta da catedral de Wittenberg em 31 de outubro de 1517, e não tivesse lançado uma rebelião contra a Igreja Romana, o perigo Muçulmano poderia ter sido contido”.

Quem disse? Gottfried outra vez. Só Gottfried faz um pedido tão BIZZARO. Mas não o Ibrahim. Mais uma vez, se Ibrahim tivesse dito isso, Gottfried teria citado.

Gottfried diz: “[sugerindo que Ibrahim disse] Não só Lutero e seus seguidores enfraqueceram a unidade do Ocidente Cristão, mas também apoiaram a penetração dos Muçulmanos na Europa. Enquanto o exército Turco se mudou da Hungria para o oeste em direção a Viena, Lutero estava exortando a “passividade” diante dos invasores hostis e, segundo Ibrahim, ajudando implicitamente e explicitamente os Turcos a enfraquecer a determinação da Europa Cristã”.

Mais uma vez, Gottfried está implicando que “Ibrahim diz”, mas não cita ele, porque Ibrahim nunca disse isso.

Essa não é uma revelação acadêmica muito negligente, e sim uma deturpação sensacionalista do que Ibrahim disse. Ele nunca disse que Lutero “deu apoio” à penetração Muçulmana da Europa. São palavras como “dar apoio” que fazem a diferença entre ações inúteis a favor de um inimigo, e traição.

Gottfried diz: “Há tantos buracos nesse resumo anti-Protestante que dificilmente alguém saberá onde começa a crítica.

No entanto, quem imagina muitos “buracos” acaba os vendo; um bom lugar para começar a crítica é realmente ler o artigo corretamente para garantir que os buracos existam. Certifique-se de que pode representar uma pessoa adequadamente antes de discordar dela. Use citações, como um professor ensina seus alunos a fazerem em casos como este. Citações forçam o escritor a ser equilibrado.

Gottfried diz: Ele não pediu “passividade” diante dessa crise civilizacional. Na verdade, Lutero estava disposto a unir forças com os príncipes Católicos, apesar de estarem matando e expulsando seus seguidores, para combater o “exército do Diabo”.
Ibrahim disse que Lutero ORIGINALMENTE pregava a passividade diante do Islã, mas note como Gottfried tira o ‘originalmente’ e argumenta como se Ibrahim tivesse dito sem a qualificação de ‘originalmente’.

[…]

Gottfried disse: “Além disso, entre 1525 e 1530, mesmo enquanto os Turcos se mudavam para Viena, o imperador de Habsburgo e principal defensor da fé Católica, Charles V, lutavam contra seus companheiros Católicos, incluindo o Papa Clemente VII, os Franceses, o Inglês e as repúblicas de Veneza e Florença”.

Bem, sim. Qual é exatamente o tipo de coisa que o próprio Ibrahim chamou a atenção para fora em seu artigo equilibrado, e uma leitura mais acadêmica do artigo de Ibrahim e menos indignação teria poupado Gottfried acrescentando indignadamente o equilíbrio ausente ao artigo de Ibrahim, o qual Ibrahim já havia *explicitamente* acrescentado: Ibrahim disse: ‘Em 1535, “foi uma das verdades mais amargas”, escreve o historiador Roger Crowley, “que o Rei Católico [Charles V] gastaria mais tempo, dinheiro e energia lutando contra os Franceses e os Protestantes do que ele jamais dedicou à guerra contra o [Sultan] Suleiman”‘

O próprio artigo de Ibrahim tem muitas outras calmas e tranquilas retratações acadêmicas, todos os tipos de pontos que Gottfried o acusou falsamente de fazer:

Ibrahim disse: Que a Reforma Protestante involuntariamente se beneficiou do Islã não deve ser interpretada como um ataque à Reforma ou defesa do Catolicismo.

Então: o resumo da situação é que o artigo de Gottfried é um grande e emocional espantalho. É histérico. Como diz o Ibrahim, ele não tem um “cavalo no páreo”. Infelizmente, quando há uma luta de vários séculos acontecendo, mesmo se você não quiser participar, as pessoas irão perceber você desse jeito, e com frequência são as pessoas que têm um cavalo na páreo é que não podem ver você de outra maneira. Aqueles cujos pontos de vista são tendenciosos e emocionais veem as visões opostas dos outros como tendenciosas e emocionais, mesmo quando não são.


Não deixe de ler: O Ocidente Pró-Islâmico: Nasceu Há 500 Anos


Tradução: Tião Cazeiro — Muhammad e os Sufis

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